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2,4 mil mulheres e crianças já foram escalpeladas na Amazônia; DPE-AP age para que a lista não cresça

Em ação na Ilha de Santana, Defensoria Pública, Capitania dos Portos e ONG de vítimas alertam sobre os riscos do eixo desprotegido em embarcações

Por Ingra Tadaiesky
Data do Registro: 31/08/2026, às 13:57:54


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No dia 28 de agosto, Dia Nacional de Combate e Prevenção ao Escalpelamento, a Defensoria Pública do Amapá (DPE-AP) foi à Escola Municipal Leonice Dias Borges, na Ilha de Santana, para alertar as crianças sobre os perigos do eixo do motor desprotegido em embarcações fluviais, além de ensinar medidas simples de segurança. A ação contou com a participação da Capitania dos Portos e a ONG Mulheres Guerreiras Vítimas de Escalpelamento da Amazônia.

O escalpelamento é o arrancamento brusco do couro cabeludo. Trata-se de um acidente grave e recorrente na região amazônica, favorecido pelo uso intenso do transporte fluvial no dia a dia da população. Segundo levantamento da ONG, já são mais de 2.400 casos registrados entre mulheres e crianças no Norte do país. Só no Amapá, são 150 vítimas registradas em Macapá e 178 em Santana.

Segundo a defensora pública Maria Luiza Morata, a ação vai além da prevenção ao escalpelamento, pois também explica sobre a atuação da Defensoria no suporte essencial após o acidente. A instituição orienta as famílias a buscar atendimento de urgência no SUS, auxilia no acesso a benefícios assistenciais junto ao INSS e atua juridicamente para garantir cirurgias reparadoras e apoio psicológico gratuito, podendo também responsabilizar legalmente condutores negligentes que operam embarcações sem a devida segurança.

“Crianças e adolescentes, especialmente meninas, estão entre as principais vítimas do escalpelamento e precisam aprender, desde cedo, como se proteger. Elas também podem levar essa conscientização para suas mães e para as mulheres da família, ajudando a prevenir novos acidentes”, afirmou Morata.

Sequelas

As sequelas de um acidente assim são profundas e duradouras. Maria Trindade, presidente da ONG, sofreu escalpelamento aos 7 anos. Hoje, aos 58, ainda convive com as dores físicas e emocionais deixadas pelo acidente.

"Quem é escalpelada precisa aprender a viver com o preconceito, com a solidão, com a dor, a viver sem o cabelo. A gente vem aqui justamente para evitar que isso aconteça com outras pessoas", contou.

Ao longo desses anos, Maria já passou por 338 cirurgias plásticas reconstrutivas, um processo que, segundo ela, exige não só recuperação física, mas também reinventar-se e ressignificar a própria dor.

Para quem vive na comunidade, o perigo não é abstrato. Está no cotidiano. Luciele Teles, professora do 5º ano da escola, viveu isso de perto. Quando era criança, sua irmã de apenas 8 anos foi vítima de escalpelamento. No mesmo período, uma colega de escola sofreu o mesmo tipo de acidente e não resistiu. Ela faleceu a caminho do socorro, vítima da distância e da falta de atendimento rápido, comuns na região.

"Trazer para a escola um tema como esse é muito importante para a criança ter conhecimento, para saber que ali tem um perigo", disse a professora.

Segundo ela, conscientizar as crianças é o caminho mais rápido para alcançar as famílias, já que a maioria dos pais da comunidade de Santana trabalha como catraieiros, condutores de pequenas embarcações de transporte. Hoje, os próprios alunos têm o papel de cobrar dos pais a instalação obrigatória da capa protetora no eixo do motor.

A mensagem de prevenção chegou aos alunos. Aos 10 anos, Maria Eduarda avaliou a palestra como "boa e útil". Ela já quase sofreu um acidente de escalpelamento quando era menor, e desde então entende a importância das medidas de segurança.

Depois da palestra, disse ter aprendido ainda mais sobre os cuidados durante as viagens de barco. "Quando eu vou viajar, amarro o cabelo bem no alto”, explicou.

Ao final do encontro, para tornar a conscientização mais concreta, os estudantes receberam elásticos de cabelo, um lembrete simples, mas eficaz, de que pequenos gestos podem salvar vidas.

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