"O meu pai desapareceu, mas eu não posso desaparecer porque nesse momento eu preciso ser a voz dele". A declaração de Mariana França, filha de Leonardo França, desaparecido desde 2013, emocionou os presentes durante a abertura do IV Encontro sobre os Aspectos Jurídicos do Desaparecimento de Pessoas, realizado nos dias 8 e 9 de julho, na Defensoria Pública do Ceará (DPCE).
O encontro, promovido pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), em parceria com a DPCE e o Conselho Nacional das Defensoras e Defensores Públicos-Gerais (Condege), reuniu representantes da Defensoria Pública de todo o país para discutir estratégias de acolhimento às famílias e fortalecimento da atuação institucional diante dos casos de desaparecimento de pessoas.

Representando a Defensoria Pública do Amapá (DPE-AP), a subdefensora pública-geral e titular do Núcleo de Direitos Humanos, Adegmar Loiola, participou da programação para conhecer a experiência desenvolvida pela Defensoria cearense, referência nacional na construção de fluxos de atendimento às famílias de pessoas desaparecidas.
A participação marca o início do planejamento da DPE-AP para estruturar uma atuação específica sobre a temática. A iniciativa considera as particularidades do estado, especialmente por estar localizado em região de fronteira e pelo crescimento populacional observado em Oiapoque diante da perspectiva de exploração de petróleo.
Durante a abertura do encontro, Mariana França compartilhou a busca pelo pai e relatou como encontrou apoio na Defensoria Pública e no Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

"Hoje, em 2026, eu ainda não tenho respostas sobre o meu pai, mas eu não me sinto sozinha. Tenho defensores, assistentes sociais, psicólogos e pessoas que me apoiam nesse momento. O meu pai desapareceu, mas eu não posso desaparecer porque preciso ser a voz dele", afirmou Mariana.
Ela também destacou que desconhecia os direitos garantidos às famílias de pessoas desaparecidas e que somente anos depois encontrou orientação jurídica e uma rede de acolhimento.
Experiência
A defensora pública do Ceará Mariana Lobo explicou que a atuação da instituição contribuiu para fortalecer a política estadual de enfrentamento ao desaparecimento de pessoas, com a criação de um comitê que reúne diferentes órgãos, o aperfeiçoamento dos fluxos de atendimento e a implantação de protocolos para os casos de desaparecimento.
Segundo ela, essas medidas permitiram integrar os órgãos envolvidos nas buscas e ampliar o suporte oferecido às famílias, tornando o Ceará uma referência nacional na temática.

Dados do Mapa da Segurança Pública 2026, divulgado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, apontam que o Amapá registrou a maior redução percentual do país nos casos de desaparecimento de pessoas entre 2024 e 2025, com queda de 8,48%. No mesmo período, o estado apresentou o segundo maior crescimento nacional na localização de pessoas, com aumento de 61,71%.
Apesar dos indicadores positivos, a Defensoria Pública do Amapá entende que a atuação na temática deve ser contínua. Além de fortalecer o atendimento às famílias amapaenses, a instituição busca se preparar para atuar de forma articulada em casos que envolvam pessoas desaparecidas de outros estados eventualmente localizadas no Amapá, especialmente em razão da posição estratégica do estado na faixa de fronteira.